terça-feira, 26 de julho de 2011

INDIGÊNCIA POLÍTICA

SALVADOR SOFRE DE INDIGÊNCIA POLÍTICA
Publicado pelo site BAHIA NA REDE em 23/05/2011

Em entrevista exclusiva ao Bahia na Rede, o cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, professor da Universidade Federal da Bahia, analisa o momento político de Salvador à luz da sua história recente e nos ajuda a entender a dimensão do caos político, administrativo e urbano em que estamos mergulhados.

Bahia na Rede: Como você vê o atual momento político de Salvador?
Paulo Fábio: Para ser compreendida a situação de orfandade política em que Salvador se encontra, devemos analisar não apenas o comportamento do atual, mas, sobretudo, as estratégias dos partidos com influência no município, que há muito tempo vêm sendo omissos, renunciatários, quanto a encarar Salvador como lugar que mereça que a ele se dedique estratégias políticas e administrativas específicas. Há muitos anos Salvador é tratada como mero degrau da disputa estadual, trampolim que pode levar ao poder estadual.

Bahia na Rede: Você poderia exemplificar?
Paulo Fábio: A cidade já pagou preço alto por isso, em passado mais ou menos recente. Lembro a convergência de forças políticas de esquerda, e de quase toda a oposição da época, em apoio à pretensão de Mário Kertesz de tornar-se, como se tornou, o candidato a prefeito, em 1985, pelo PMDB, que era então uma ampla frente e a principal legenda de oposição. Aquela foi a primeira eleição direta para prefeitos de capitais após a ditadura e o quadro pré-eleitoral de então indicava que o PMDB tinha, em Salvador, tanta margem de manobra, que o candidato que indicasse teria amplas chances de vencer, com larga vantagem.

Bahia na Rede: Por que escolher Kertész como candidato das oposições, tendo em vista sua trajetória política construída ao lado de ACM? (Quando este foi prefeito de Salvador, Kertész, então com 22 anos, foi o chefe de gabinete da Secretaria da Fazenda. Na primeira gestão de ACM como governador da Bahia (1971-1975), Kertész foi o primeiro titular da Secretaria do Planejamento, Ciência e Tecnologia. Foi chefe de gabinete de ACM, quando este era presidente da Eletrobrás, entre 1975 e 1978, e prefeito nomeado de Salvador (1979-1981) por ACM em seu segundo governo).
Paulo Fábio: É preciso lembrar que Mário Kertész rompeu estrepitosamente com o carlismo, fato que gerou grande repercussão política na cidade. Em seguida, ligou-se ao PMDB e, em 1982, conseguiu fazer de sua então esposa, Eliana Kertész, a vereadora mais votada da história de Salvador. O projeto prioritário dos partidos de oposição naquele momento era a eleição do próximo governador, em 1986.
Acreditou-se à época que Mário Kertesz era imprescindível para este projeto, pois não se previa a vitória de Waldir com tanta folga, como acabaria ocorrendo. Então Salvador foi “rifada”, do ponto de vista político em nome da disputa estadual e, em razão do objetivo político considerado maior, de viabilizar a eleição de Waldir Pires em 1986, sacrificou-se aspirações e interesses que poderiam (ou não) significar alternativas novas para a cidade. Kertész voltou assim à prefeitura, seu alinhamento político real foi sendo aos poucos delineado e já se tornava mais claro cerca de um ano depois. Terminou apoiando Waldir (um tanto discretamente), mas seu arco de alianças na prefeitura orientou-se a um conjunto de forças mais conservadoras.

Bahia na Rede: Que efeitos teve isso sobre a gestão da cidade?
Paulo Fábio: Kertész tomou iniciativas interessantes, como a adoção de uma política cultural e o desenvolvimento de um conceito sobre o urbano, cuja direção era polêmica, mas não se pode negar que houve ali um esforço de pensar a cidade; mas ao mesmo tempo foi uma experiência pródiga no trato com o erário, agravando, com dívidas, obras inconclusas e escassa transparência, a já precária situação financeira da Prefeitura, com a qual seus sucessores tiveram dificuldades de lidar.
Além disso, Kertész possuía compreensão absolutamente vertical da atividade política, o que tem a ver, naturalmente, com a escola em que se formou. Foram desmontados alguns mecanismos de participação política criados durante a gestão anterior, de Manoel Castro. Apesar de ter sido este um prefeito nomeado, os mecanismos foram criados em razão da força da bancada oposicionista do PMDB na Câmara, amplamente majoritária e cujo tom de atuação era dado pelos seus segmentos à esquerda, o que levara Manoel Castro a negociação com o Legislativo e também com um conjunto de associações e entidades comunitárias. O Conselho Municipal de Transportes e o Conselho de Desenvolvimento Urbano (Condurb) são exemplos desses novos espaços institucionais, que se tornariam letra morta durante o segundo mandato de Kertész. Isto revela, de um lado, a fragilidade e mesmo a relativa artificialidade do então chamado movimento popular de Salvador e, de outro lado, um estilo autocrático de gestão da cidade, que tinha pouco a ver com o empuxo do PMDB, naquela época imediatamente pós-ditadura.

Bahia na Rede: A submissão da política de Salvador à política estadual repetiria-se depois?
Paulo Fábio: Para abreviarmos posso dizer que nas eleições municipais de 2004 e 2008 a mesma lógica foi revivida. É bom lembrar as condições em que João Henrique se elegeu em 2004: era um deputado de nicho eleitoral, conhecido da população por combater taxas e impostos de qualquer natureza, por acionar freqüentemente o Ministério Público e buscar liminares na Justiça. Tornou-se um nome de algum destaque e apresentava certa vantagem na competição com o campo carlista, que não tinha nomes fortes para suceder ao então prefeito Imbassahy, um carlista bem avaliado como gestor.
No campo da situação estadual o candidato acabou sendo César Borges. Por sua vez, a chamada esquerda ficou dividida, embora houvesse, nas tendências do eleitorado, condições da competição que lhe eram relativamente favoráveis, após o início da chamada “Era Lula”. O PT lançou Nelson Pelegrino e o PSB, Lídice da Mata, em aliança com o PMDB, já então partido de Geddel Vieira Lima. Houve ainda a candidatura independente do ex-carlista Benito Gama, que se mostrou eleitoralmente inexpressiva.
Mais uma vez, a prioridade dos partidos da chamada esquerda, que tinham maior densidade eleitoral em Salvador, era a eleição ao Governo do Estado, dali a dois anos e que acabaria sendo vencida por Jacques Wagner. Lídice da Mata e Nelson Pelegrino chegaram a dizer, em seus horários eleitorais, que tanto fazia o eleitor votar em um deles como em João Henrique, pois o importante era derrotar Borges, quer dizer, o carlismo. João Henrique passou a campanha toda voando em céu de brigadeiro. Em nenhum momento foi instado a assumir compromissos substantivos.

Bahia na Rede: Nenhum candidato revelou ter projeto político e concepção urbana para o desenvolvimento da cidade?
Paulo Fábio: Creio que o problema não é faltar projeto (projetos não governam) e sim o sentido renunciatário das estratégias políticas em relação a Salvador. A chamada esquerda, a meu ver, não entrou pra valer na campanha de 2004, ou, ao menos, não entrou como poderia ter entrado.
Para a ex-prefeita Lídice, o que mais importou foi fazer daquelas eleições uma ocasião para resgatar sua imagem perante o eleitorado, o que fez com êxito. Mas em nenhum instante se colocou como alguém que estava, de fato, disposta a um confronto de segundo turno, caso esse confronto se desse contra Joâo Henrique.
E ao PT, o que mais interessava era a frente contra o carlismo, uma aliança para a eleição de Wagner em 2006, conciliada com o objetivo de ampliar a sustentação política do governo Lula. Houve até almoço de ACM e com o seu candidato, César Borges no Palácio do Planalto às vésperas das eleições de prefeito, evento quase social cujo único efeito político real foi diminuir a credibilidade de Pelegrino como candidato de oposição.
Disso tudo beneficiou-se João Henrique, que adquiriu tais credenciais a baixo custo, bastando repetir afirmações vazias de conteúdo como a de que iria fazer o que fosse “bom” e evitar o que fosse “mau” para a cidade. Era evidente a existência de um vácuo político. Salvador foi politicamente rifada, como ocorrera no tempo de Mário Kertész. E em vez de segundo turno contra João Henrique, o que a esquerda disputou foi o passe do pai do prefeito eleito, que em 2006 se integraria, como candidato ao Senado, à chapa de Wagner.
Uma vez prefeito, João Henrique continuou a ser o outsider de sempre. Mostra-se incapaz de gerir a crise financeira da prefeitura e, livrando-se do PSDB (seu aliado eleitoral em 2004) busca se sustentar aproximando-se do governo Lula. Quando, apeaar disso, descia a ladeira recebeu abrigo no PMDB, partido que integrava a base de Wagner e logo integraria a de Lula. As contradições da sua gestão com o PT municipal acirraram, mas a estratégia do governo estadual foi abafá-las. O PT só saiu do governo de João Henrique pouco tempo antes do início do processo eleitoral de 2008. E pagou caro por isso, no debate eleitoral.
Em nome da governabilidade e do projeto estadual, o PT foi à campanha de 2008, mais uma vez, com pés de chumbo. Meses antes do primeiro turno das eleições,Wagner insistia numa equidistância entre três candidatos da sua base (Imbassahy/PSDB, João Henrique/PMDB e o do PT, que depois de muita delonga, acabou sendo Walter Pinheiro).
O governador mudou de atitude na reta final, mas a fila anda e àquela altura João já trocara lágrimas e telhado de vidro, por verbo afiado e costas largas. Repetiu-se, assim 2004 em 2008 e João Henrique se reelegeu graças à predominância da lógica da política estadual, por duas vias: pela do PT, já comentada e também pela do PMDB, pois João foi ali abrigado pelo ministro Geddel porque fazer o prefeito de Salvador era acicate fundamental para a candidatura do segundo ao governo em 2010. Faltaram, mais uma vez, forças políticas em Salvador que centrassem foco na cidade, no enfrentamento político de seus problemas.

Bahia na Rede: Esta falta histórica de compromisso com a cidade acaba oferecendo campo aberto para gestões irresponsáveis como a de João Henrique e de outros prefeitos de Salvador.
Paulo Fábio: A degradação urbana que se vive hoje em Salvador resulta, em grande parte, da falta de estratégias políticas para a cidade, criando tereno propício a aventureirismos políticos e a uma gestão atrabiliária, incapaz de fazer face aos problemas financeiros do poder municipal e de dotá-lo de um planejamento com sentido público. Gestão leniente para com o capital predatório, que há em todo lugar e pontifica onde não é monitorado e contido por uma política pública.

Bahia na Rede: E como você vê o ambiente para as próximas eleições?
Paulo Fábio: Para 2012 não estou vendo no horizonte alteração positiva neste cenário. Quem assumirá a bandeira da oposição ao governo de João Henrique, apontando um caminho de mobilidade política para a cidade? Os partidos não se apresentam para tal e parecem achar que têm direito a uma anistia por esse pecado de omissão porque se declaram engajados na tal mobilidade urbana, senha para aventuras mercantis que têm como horizonte 2014 e não 2012. Pior que das outras vezes, o calendário que comanda a política municipal não é estadual, nem sequer político, mas puramente empresarial. A política se esconde na Copa de 2014.
Neste momento, o PT, em sua política de copa e cozinha, faz oposição de fachada ao prefeito. Está o tempo todo constrangido pela estratégia da política estadual, que quer incorporar o prefeito nos acordos. O virtual candidato do partido, Nelson Pelegrino, corre risco de tornar-se um gato pardo, indiferenciado entre os demais, no saco do governismo federal e estadual. Apesar do seu bom mocismo (ou até por causa dele) parece-me próxima de zero a chance de nele Wagner colocar suas fichas. Seguirão moucos os ouvidos do palácio se o pré-candidato não forjar, na opinião pública e, em seguida, no eleitorado, a idéia de que é oposição ao que aí está na Prefeitura e porta- voz de algo diferente, com identidade política concernente ao que durante muito tempo foi o mote retórico da dita esquerda: práticas republicanas na sociedade política e movimentacionismo na sociedade civil. Idéia oposta à que hoje cultiva, que é conservar um ambiente político aclamativo à política do saco de gatos pardos.
A senadora Lídice da Mata – apesar da sua estatura eleitoral e da situação confortável de ter agora oito anos de mandato de senadora o que, em tese, lhe permitiria correr riscos – também não se arvora a liderar uma oposição a João Henrique porque o seu PSB está preso a interesses no (e a compromissos com o) governo estadual; o PC do B ameaça com uma candidatura, mas, diante do histórico do partido, é pouco provável que seja realmente para valer; o DEM permanece na prefeitura, pelas beiradas, embora finja que não; o ex-prefeito Imbassahy, do PSDB, tem como trunfo a experiência de gestão bem avaliada, mas tem também forte viés tecnocrático e clara dificuldade em formular discurso político. E o PMDB não tem crédito acumulado para fazer discurso de oposição, pois antes terá que explicar o que há de diferente entre o João Henrique de hoje e aquele que, em 2008, o partido retirou do sopé da ladeira para recolocar no topo.
O quadro é de indigência política lamentável. O campo da situação é controlado hoje pelo PP de João Leão, mediante um arranjo que possibilita um gerenciamento político-empresarial de interesses neófitos na política da capital, exercido, com apetite, em combinação com o ministério ocupado pelo partido, com a estratégia do governador e com a rendição mais geral do mundo político às leis de mercado.
E na oposição, a ausência de palavra política consistente levou o vácuo a ponto tal que se cogita retorno à hipótese de candidatura de uma personalidade midiática. Mário Kertesz jura que descarta, mas se mudasse de idéia, não seria, nas atuais circunstâncias, um revival de sua performance de 1985; embora sua personalidade seja bem diferente, a lembrança do seu nome agora alude mais à situação de vácuo que propiciou, em 1988, a eleição de Fernando José. A situação eleitoral é outra, as chances de um outsider midiático são menores, mas nada indica que isso seja um dado animador. A simples cogitação de um outsider depois de oito anos de sofrimento com as peripécias de um deles revela o buraco político em que estamos metidos.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

PELOURINHO É LABORATÓRIO

PELOURINHO É LABORATÓRIO DE POLÍTICA SOCIAL
José QUEIROZ

Os moradores do Pelourinho se queixam do descaso dos governantes por aquele bairro, mas na verdade ele foi abandonado gradativamente pela elite econômica e cultural de Salvador, do que se aproveitam os políticos há 40 anos, desde a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural e Natural, de 1972, quando ele se tornou uma mina de dinheiro e votos. No afã desse voto, do cargo e dos benefícios, eles conseguiram deturpar de tal maneira a história do lugar, e criaram uma situação tão absurda, que está difícil até para eles mesmos resolverem. E isto só foi possível porque a elite se voltou para o outro lado da cidade e para seus próprios interesses, isolando o Centro da cidade completamente, só lembrando do Pelourinho quando quer fazer um passeio ‘diferente’, o que não está sendo possível.

Até o turismo, atividade salvadora do lugar, e do próprio bolso do político, eles conseguiram deturpar, deixando uma impressão que, se dependesse de algumas pessoas e instituições ali dentro, ele não existiria. O turismo é visto como um monstro que toma as casas, expulsa as pessoas, devora culturas, destrói o meio ambiente e não sustenta o lugar. Entretanto, pela expansão urbana que houve depois do Pólo Petroquímico, na década de 70, e das mudanças do padrão de vida causado pelo avanço tecnológico e das sociedades, o Pelourinho não teria sobrevivido, se não fosse o tombamento e a possibilidade do turismo, teria ido ao chão. O comércio foi deslocado para os shoppings, prejudicando o Centro de Salvador, mas um dos equívocos gritantes no Pelourinho é dizer que o governo que começou a recuperação em 92 queria transformar o Pelourinho num shopping, o que teria sido bom. Nem mesmo como centro de formação e cultura ele teria sobrevivido, ou se sustentaria.

É uma ironia da História! O Pelourinho é de 1549, mas não há nada praticamente desta época, quando tudo foi improvisado. A partir do final da primeira metade do séc XVII a região começou a ser “modernizada”, tendo surgido a Câmara, Ig da Misericórdia, Paço do Saldanha, Catedral Basílica, e todos os edifícios que são fáceis de identificar atualmente pela arquitetura idêntica e cor branca. No séc XIX o Pelourinho começou a declinar pela saída de famílias para a Ribeira, Nazaré, Garcia, Barra, etc, e pelo fim do trabalho escravo.

Os interesses econômicos então se voltaram para o Rio de Janeiro, a capital do Brasil, e São Paulo, reduto do café, e o Pelourinho começou a ser invadido, principalmente com a chegada do Pólo Petroquímico, que deslocou as pessoas e os negócios naturalmente para o lado norte da cidade, esvaziando o Centro. Com a economia do município ‘quebrada’ não houve interesse nem dinheiro para modernizar o lugar, sobrevivendo assim este belo, grande e importante conjunto arquitetônico, que foi salvo pelo tombamento em 1985, mas que lamentavelmente está em declínio outra vez, agora não por dinheiro, mas por exploração política irresponsável, ou por interesses obscuros.

O Pelourinho foi protegido por muralhas por muito tempo, e dentro viveram brancos, índios e negros, ricos e pobres, polícia e ladrão, padre e pecador, autoridades e servidores, simplesmente porque nossa colonização foi uma aventura, uma empreitada audaciosa, o objetivo era dinheiro e sobreviver, ninguém estava preocupado com a cor ou a origem de ninguém. Nem a inquisição quis se arriscar aqui! Resultou daí uma rede de relações que historiadores e sociólogos explicam de maneira diferente, mas o espírito aventureiro e desejoso de riqueza, a convivência forçada e perigosa, a necessidade de proteção e a cumplicidade, e a solidariedade que resultou, estão explícitos no caráter do brasileiro. Mas o populismo político conseguiu impor outra mentalidade, graças à formação educacional precária deste país.

Partidos de oposição das décadas de 80 e 90, hoje no poder, fizeram aquelas pessoas acreditarem que a reforma previa a expulsão deles, ofereceram proteção, transformaram cada parte e cada grupo do Centro Histórico numa instituição, numa associação, ou congênere – há cerca de 50 – repassam dinheiro público, e garantem seus votos. Mas o dinheiro não é suficiente para tantos necessitados que dão votos nesse país, e ainda manter o Pelourinho. E o governo atual, que acusou o anterior de prejudicar essas pessoas - que sem o turismo ficaram sem trabalho - está prejudicando agora toda Salvador, por não cuidar do Centro Histórico e do centro da cidade.

O problema é como gastar cerca de R$ 700 milhões nessa reforma e entregar os casarões para famílias de baixa renda, como eles prometeram, e que não vão fazer a manutenção dos imóveis. Quem vai fazer? A sociedade, para garantir os votos de partidos políticos? Qual a solução para a sustentabilidade do Pelourinho? Parece fácil a resposta, mas difícil é convencer o governo a trabalhar efetivamente nesse sentido, já que aquele lugar como está lhe garante dinheiro e voto, ou pelo menos garantia, porque a comunidade cansou, quer a solução, vai levar o caso ao conhecimento da UNESCO, e está adotando outros procedimentos para cobrar o cumprimento das obrigações da Prefeitura, Governo do Estado e órgãos federais.

Política Social virou uma indústria de votos nesse país! Ficou mais fácil eleger-se, basta deixar a sociedade degradar-se e dar as migalhas, que é certo o voto do eleitor. É um dos momentos mais perversos da história do Brasil, que penaliza toda a sociedade, e não apenas um grupo. O governo sustenta uma mentira grosseira, a da melhoria do poder aquisitivo, com números que geram dinheiro, inventados pelo trabalho nefasto de marqueteiros e publicitários, defendido absurdamente por pessoas que no mínimo não circulam no interior do país, e com apoio total da imprensa regular. O país está agitado! O Pelourinho também está agitado! Quer o começo imediato da recuperação.

terça-feira, 19 de julho de 2011

PELOURINHO PEDE PAZ!

PELOURINHO PEDE PAZ!
José QUEIROZ, especialista em turismo interno, assessor de imprensa da ACOPELÔ – Associação dos Comerciantes do Pelourinho – e um dos gestores do Movimento SOS PELOURINHO

Não dá para esconder, nem para esperar mais! O Pelourinho precisa de mais segurança, e as Polícias Militar e Civil precisam de apoio, de reforços, de recursos, e de instalações que os abriguem e imponham respeito. Até isto o Estado deixou acontecer! A Polícia Militar não tem instalações próprias e compatíveis com suas necessidades, numa situação já constrangedora, além de ser responsabilizada pela criminalidade gerada pela falta de trabalho, assistência social e redução da tropa no governo atual.

A Polícia Civil precisa de mais agentes, veículos especiais para circular por todo o Centro de Salvador, espaço para detentos, e apoio dos serviços sociais da prefeitura e do estado. A Guarda Municipal, que consome dinheiro público, precisa trabalhar ou ser desativada. São 1500 homens que podem impedir a invasão dos casarões e da privacidade das pessoas que passeiam no Pelourinho e em outros lugares de Salvador. Estão ganhando para isto!  A Polícia Federal também precisa intervir por causa do tráfico de drogas. Salvador precisa de uma ação conjunta, um mutirão, autoridade, JÁ!

O assassinato cometido no Largo do Pelourinho, na Praça do Reggae, no último dia 16/07, reflete a situação de maneira emblemática! Os delinqüentes sabem das limitações da segurança local e perderam o medo de serem punidos, em virtude da permissividade da justiça e da falência do sistema prisional, além da frouxidão que incentiva o delito nas novas leis criminais, criadas para resolver o problema do estado, não o da sociedade, e que resultarão em mais violência e corrupção, pois se criou automaticamente a indústria das fianças. Nem governante nem bandido respeitam mais o estado, a sociedade e a vida, por falta de educação, perspectiva e autoridade.

Isto não é simples fatalidade, os jovens não nascem criminosos, nem é Deus quem quer assim! É a falência da família e das instituições públicas, da moral e dos bons costumes, do mercado de trabalho e dos sonhos de carreira, que resultaram do desmonte da educação pública na década de 70. Vê-se diariamente nos noticiários o desperdício de dinheiro público com corrupção, partidos políticos e futebol. Mas roubar assim é legal! Enquanto isso, também diariamente, há notícias de assassinato de jovens envolvidos, ou vítima, do crime, vê-se a morte da força de trabalho do país, o comprometimento dos negócios, de vidas e famílias, e da imagem e do futuro do povo. O que o brasileiro não suporta mais são as notícias de roubo em todos os setores do governo! Não há controle, limites, autoridade, punição, respeito pela sociedade que vê o país definhando dia a dia, e sabe que o Estado está sendo assaltado. BASTA!

Não há dinheiro para as necessidades básicas do Pelourinho, como a assistência social que compromete a segurança, e as próprias Polícias, porque o dinheiro tem sido investido em outros negócios. No último dia 14/06 foi aprovado com maioria absoluta, pela Assembléia Legislativa, o Projeto de Lei 19.177/11, que autoriza o Governo a tomar emprestado ao BID U$ 50,82 milhões, cerca de R$ 80 milhões de reais, PARA O TURISMO. Segundo o Secretário de Turismo da Bahia, Domingos Leonelli, o dinheiro será investido na Baía de Todos os Santos e no Pelourinho. O secretário da Casa Civil da prefeitura, João Leão, informou que dispõe de cerca de R$ 580 mil para uma intervenção conjunta do Estado e da Prefeitura no Centro Histórico. Não convenceu, e ainda não começou nada! E ainda faltam cerca de R$ 79 milhões para gastar, Oxalá, seja aqui! A Polícia Militar é obrigada a tirar o soldado do posto para fazer a troca de turno, já que o estado não paga hora extra. E os delinqüentes aproveitam esta falha.

O Governo Federal e os partidos políticos tem um comportamento em relação aos estados e regiões produtivas do Brasil muito parecido com a exploração colonial e imperial, que provocou muita revolta e muitos conflitos. Só cobram! A riqueza desses lugares não é utilizada para o desenvolvimento deles, principalmente quando líderes medíocres ou desonestos são cooptados por partidos políticos e seduzidos pela política nacional, e apenas usam os votos e o dinheiro de seus lugares de origem. Mas atualmente, apesar de manterem o povo sem educação, de obrigarem o povo a votar, e de instituírem a compra do voto através de políticas sociais assistencialistas, o nível de consciência política é maior, e a paciência cada vez menor, porque a falta do trabalho que poderia ser gerado com o dinheiro das Bolsas, a falta de saúde, de oportunidades, a roleta russa da violência, e as redes sociais, estão amadurecendo a sociedade.

O Brasil precisará resolver o problema da violência se quiser fazer turismo! É um dos principais fatores que diminuíram o turismo no país e no Pelourinho. O mundo sabe disso! E não se pode esperar mudanças através dos governantes que estão aí, pois eles não tem conhecimentos, experiência e influência na indústria turística, estão à mercê de operadores e burocratas inescrupulosos que trabalham em benefício próprio, exploram o turismo interno e estão desviando o turista brasileiro para fora do país, ou para negócios com grupos estrangeiros, como os resorts e os cruzeiros. Esvaziaram os centros turísticos tradicionais, como Salvador.

Portanto é preciso incentivar a organização dos setores, buscar a representação política do Pelourinho e do turismo por técnicos, e interagir com a sociedade, já que o turismo fomenta várias outras atividades e é do interesse geral. O orçamento da Copa já aumentou em todo o Brasil devido à má gerência e roubalheira. Salvador também tem sua Secopa, que tem a ver com turismo e com o Pelourinho, mas que às vésperas da Copa das Confederações não realizou nenhuma obra expressiva, e seguramente está recebendo recursos para isto e para salários de gestores, que nos últimos anos saem da política para todos os setores do Estado, comprometendo cruelmente a sociedade brasileira. O Pelourinho pode dar exemplo para o país exigindo a gestão participativa!