PELOURINHO É LABORATÓRIO DE POLÍTICA SOCIAL
José QUEIROZ
Os moradores do Pelourinho se queixam do descaso dos governantes por aquele bairro, mas na verdade ele foi abandonado gradativamente pela elite econômica e cultural de Salvador, do que se aproveitam os políticos há 40 anos, desde a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural e Natural, de 1972, quando ele se tornou uma mina de dinheiro e votos. No afã desse voto, do cargo e dos benefícios, eles conseguiram deturpar de tal maneira a história do lugar, e criaram uma situação tão absurda, que está difícil até para eles mesmos resolverem. E isto só foi possível porque a elite se voltou para o outro lado da cidade e para seus próprios interesses, isolando o Centro da cidade completamente, só lembrando do Pelourinho quando quer fazer um passeio ‘diferente’, o que não está sendo possível.
Até o turismo, atividade salvadora do lugar, e do próprio bolso do político, eles conseguiram deturpar, deixando uma impressão que, se dependesse de algumas pessoas e instituições ali dentro, ele não existiria. O turismo é visto como um monstro que toma as casas, expulsa as pessoas, devora culturas, destrói o meio ambiente e não sustenta o lugar. Entretanto, pela expansão urbana que houve depois do Pólo Petroquímico, na década de 70, e das mudanças do padrão de vida causado pelo avanço tecnológico e das sociedades, o Pelourinho não teria sobrevivido, se não fosse o tombamento e a possibilidade do turismo, teria ido ao chão. O comércio foi deslocado para os shoppings, prejudicando o Centro de Salvador, mas um dos equívocos gritantes no Pelourinho é dizer que o governo que começou a recuperação em 92 queria transformar o Pelourinho num shopping, o que teria sido bom. Nem mesmo como centro de formação e cultura ele teria sobrevivido, ou se sustentaria.
É uma ironia da História! O Pelourinho é de 1549, mas não há nada praticamente desta época, quando tudo foi improvisado. A partir do final da primeira metade do séc XVII a região começou a ser “modernizada”, tendo surgido a Câmara, Ig da Misericórdia, Paço do Saldanha, Catedral Basílica, e todos os edifícios que são fáceis de identificar atualmente pela arquitetura idêntica e cor branca. No séc XIX o Pelourinho começou a declinar pela saída de famílias para a Ribeira, Nazaré, Garcia, Barra, etc, e pelo fim do trabalho escravo.
Os interesses econômicos então se voltaram para o Rio de Janeiro, a capital do Brasil, e São Paulo, reduto do café, e o Pelourinho começou a ser invadido, principalmente com a chegada do Pólo Petroquímico, que deslocou as pessoas e os negócios naturalmente para o lado norte da cidade, esvaziando o Centro. Com a economia do município ‘quebrada’ não houve interesse nem dinheiro para modernizar o lugar, sobrevivendo assim este belo, grande e importante conjunto arquitetônico, que foi salvo pelo tombamento em 1985, mas que lamentavelmente está em declínio outra vez, agora não por dinheiro, mas por exploração política irresponsável, ou por interesses obscuros.
O Pelourinho foi protegido por muralhas por muito tempo, e dentro viveram brancos, índios e negros, ricos e pobres, polícia e ladrão, padre e pecador, autoridades e servidores, simplesmente porque nossa colonização foi uma aventura, uma empreitada audaciosa, o objetivo era dinheiro e sobreviver, ninguém estava preocupado com a cor ou a origem de ninguém. Nem a inquisição quis se arriscar aqui! Resultou daí uma rede de relações que historiadores e sociólogos explicam de maneira diferente, mas o espírito aventureiro e desejoso de riqueza, a convivência forçada e perigosa, a necessidade de proteção e a cumplicidade, e a solidariedade que resultou, estão explícitos no caráter do brasileiro. Mas o populismo político conseguiu impor outra mentalidade, graças à formação educacional precária deste país.
Partidos de oposição das décadas de 80 e 90, hoje no poder, fizeram aquelas pessoas acreditarem que a reforma previa a expulsão deles, ofereceram proteção, transformaram cada parte e cada grupo do Centro Histórico numa instituição, numa associação, ou congênere – há cerca de 50 – repassam dinheiro público, e garantem seus votos. Mas o dinheiro não é suficiente para tantos necessitados que dão votos nesse país, e ainda manter o Pelourinho. E o governo atual, que acusou o anterior de prejudicar essas pessoas - que sem o turismo ficaram sem trabalho - está prejudicando agora toda Salvador, por não cuidar do Centro Histórico e do centro da cidade.
O problema é como gastar cerca de R$ 700 milhões nessa reforma e entregar os casarões para famílias de baixa renda, como eles prometeram, e que não vão fazer a manutenção dos imóveis. Quem vai fazer? A sociedade, para garantir os votos de partidos políticos? Qual a solução para a sustentabilidade do Pelourinho? Parece fácil a resposta, mas difícil é convencer o governo a trabalhar efetivamente nesse sentido, já que aquele lugar como está lhe garante dinheiro e voto, ou pelo menos garantia, porque a comunidade cansou, quer a solução, vai levar o caso ao conhecimento da UNESCO, e está adotando outros procedimentos para cobrar o cumprimento das obrigações da Prefeitura, Governo do Estado e órgãos federais.
Política Social virou uma indústria de votos nesse país! Ficou mais fácil eleger-se, basta deixar a sociedade degradar-se e dar as migalhas, que é certo o voto do eleitor. É um dos momentos mais perversos da história do Brasil, que penaliza toda a sociedade, e não apenas um grupo. O governo sustenta uma mentira grosseira, a da melhoria do poder aquisitivo, com números que geram dinheiro, inventados pelo trabalho nefasto de marqueteiros e publicitários, defendido absurdamente por pessoas que no mínimo não circulam no interior do país, e com apoio total da imprensa regular. O país está agitado! O Pelourinho também está agitado! Quer o começo imediato da recuperação.
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